domingo, 23 de agosto de 2009

Á Deriva com Herchcovitch


Eu não queria ir. Passei na frente do cinema, ele piscou pra mim. Não era uma esquina qualquer. Era um investimento moderno que fazia-se parecer antigo, com carpete vermelho, escadas originais de corrimões rococó e cheiro de pipoca. Só faltava mesmo a roleta. Resolvi terminar de tomar o meu suco lendo cartazes.
Á deriva. Acho que sou eu.
Pelo menos é assim que eu fico nas entressafras. Mas tem uma certa disciplina nisso tudo. Eu nado cedo, leio livros conceituais, escrevo muito e ando sem rumo, mania que peguei em São Paulo, onde não há pontos de descanso que não sejam efervescentes.
O cartaz me convidou, era azul, lindo maiô de listrinhas. Novo filme do Dhalia com Alexandre Herchcovitch pilotando o figurino, sou loca por ele! Minha caneca gigante do Mickey caveira, companheira das manhãs folgadas, não me deixa mentir. Conheci aos 14, quando comprei de uma coleção dele na Ellus uma blusa dourada-tranparente com três caveiras desenhadas, que era muito ousada para uma garota. Desde lá somos muito amigos.
Acho que foi a primeira vez que eu entrei pra ver um filme por causa do figurinista, e nos primeiros momentos estava ele lá delineando linhas. Não tinha nenhuma caveira de fato, mas sim um primor pelos ossos, tudo parecia feito com cuidado para destacá-los tocando delicadamente o corpo dos atores, confundindo pele e tecido ao vento. Não só o figurino mas tudo no filme sugere algo anatômico. Seu esqueleto lembra "Limite" de Mario Peixoto, onde uma sensação comanda a história e dirige o publico (ponto pro diretor) o músculo fixa essa estrutura, e assim a história nunca se desvia (ponto para o roteirista) a pele cria forma e embeleza (ponto pra fotografia), o sangue trás o gênio e dá cara a tapa, (ponto pros atores) e por fim Herchcovitch entra em cena, vestindo essa transação intra semiótica.
Aff!!! A essa altura já perdi a capacidade de analise. (ponto para o publico)
Então viajei na aventura de Felipa que lembrava um rito de passagem, cheio de descobertas, sensações aquáticas, belas paisagens e uma certa dose de desespero.
Através das revelações de infidelidade dos pais, Felipa consegue se desvencilhar dos seus próprios tabus e mergulhar na sua própria sexualidade sem tantas idealizações. Outras questões são levantadas, mas não se impõe á mente feito narrativa com porto seguro. Tudo está á deriva, navegando sem rumo certo, como na primeira caneca de café, ou passar na porta do cinema e entrar, ou ter 14 anos. Seja qual for ocasião, a primeira vez, o primeiro wisky, o primeiro Herchcovitch, os momentos á deriva são os que ficam na memória.

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