terça-feira, 10 de março de 2009

Procura-se Silver desesperadamente!

Comecei procurando- a no Orkut
Eu a chamava de Silver, Silver girl.
Tínhamos 14, 15 anos e fizemos algo muito errado. Fomos separadas.

Ela era boliviana, maldosa e petulante. Eu brasileira, egoísta e espaçosa. As duas costumavam incomodar. Principalmente uma a outra. Ela ariana, cursava biológicas. Eu escorpiana, humanas. Agente tinha o mesmo herói, o mesmo jeans rasgado, o mesmo gosto pelo bom e velho grunge de Seattle. Juntas, elevávamos o mundo a um grau de filosofia que simplesmente ultrapassava as paredes do colégio.
Éramos heroínas de um tempo sem causas e apesar da maquiagem matutina, do estilo “incorrigível”, dos palavrões fora de hora, acho que não conseguíamos expressar mesmo em aparência o ímpeto que nos consumia.

Foi um choque me separar dessa garota. Ainda me lembro do dia em que atravessamos a rua, uma para cada lado, deixando no meio um buraco negro que supostamente, deveria absorver todas as lembranças. Eu era a responsável pela sua partida forçada e ela era responsável pela minha primeira dor de separação.

Passei ao Google, eu lembrava seu sobrenome. Salazar. Se ela for como eu não vai se deixar ser encontrada, penso. E não mesmo. Nada de facebooks, nada de myspaces. Eis que encontro uma com o mesmo nome Salazar. Vocalista da banda Bichinha arrumadinha, esquece. Uma pessoa pode se transformar, mas nem tanto. Agente sabe disso quando conhece alguém bem no íntimo.

Eis que sonhávamos, sonhávamos, sonhávamos muito. Esse era o nosso jeito de não viver o presente. Sim, porque pra nós todas as pessoas eram medíocres e todos os cérebros insuficientes desde que nos encontramos. Tirávamos onda de cada pobre ser que se arriscava em conversar conosco na hora do intervalo, e apesar do desejo de ter um homem, nenhum babaca à vista poderia suprir nossas exigências virginais. Só nos sonhos é que fazíamos sexo selvagem com deuses que a imaginação nos servia. Contávamos sempre uma pra outra os prazeres imaginados com total riqueza de detalhes.

Na verdade tinha só uma pessoa que conseguia conversar com agente, porque essa falava a língua dos sonhos. Era Daniela. Uma hippie-japa mega inteligente que tinha bolsa de estudos e não era muito limpa. Essa sim chocava mauricinhos e patricinhas espontaneamente. Eu a protegia de quem quer que fosse que falasse uma palavra de preconceito contra ela. Certa vez a Daniela foi ao Paraguai e trouxe 3 kg de maconha de lá. Sem conseguir dar conta de vender, me passou 1 kg por cem paus e esse foi o início do fim dos tempos do sonho prateado. A muito que pais, amigos e professores pretendiam separar as duas garotas insuportáveis, pois afinal, não era saudável uma relação tão isolada, tão fora da realidade.

Fizemos um esquema e começamos a vender. Logo consegui os cem paus investidos e coloquei de volta na carteira do meu pai. O resto foi lucro pra Cassy e Silver. Cinemas, cafés, restaurante japonês, maquiagem, songbooks, internet, balada e muitos cd’s, enfim, tudo o que era muito difícil de se ter na época. De noite pesava, empacotava, de dia passava a erva pra todos os nossos “incapazes de plantão”. Consumíamos á vontade no banheiro do colégio, e não demorou muito até sermos pegas. Até porque não era segredo o fato de estarmos vendendo. Agente não se preocupou em esconder já que não era um trabalho, e sim uma diversão.

E assim começou e terminou minha aventura como traficante (minha porque ela só foi no fluxo) e junto a nossa linda amizade perigosa. Eles diziam que sim, agente dizia que não, mas o fato é que a casa caiu e a mãe da Silver decidiu mandar ela de volta pra Bolívia, pra se “regenerar” em um colégio católico. E agente se despediu sem lágrimas ou culpas, apenas com poesias e de cabeça erguida, como se a situação fosse temporária mas agente mesmo em si, fosse eterna.

Trocamos muitas cartas e durante muito tempo continuamos nos alimentando do sonho da outra. Trago uma comigo, como um documento importante, que no final, diz assim:

“....as portas e as janelas estão abertas, e somos alvos perfeitos, guerreamos mas lutamos contra a guerra, não gostamos das pessoas mas amamos os animais, não gostamos do certo mas entendemos o errado, as pessoas se dividem e se matam por nada, nós não precisamos prezar aquilo que elas prezam, nós somos aquela bela arvore de belas flores amarelas, porque o que nos leva não é apenas curtição, é algo que nunca morre, porque somos sensíveis pra entender o forte, nós não somos escola, somos vida, somos rock, somos sexo, somos brilho, somos aquela vontade de viver fascinada pela morte, somos NIRVANA.”.

C.S o poder já é nosso.

Ah, no fim encontrei Silver na internet. Em um site de Au pairs. Acho que essa foi a forma que ela encontrou de conhecer o mundo expandir seu amor pra todos os lados, cuidando de crianças. Tenho que pagar 50 euros mensais se quiser tentar fazer contato com ela, mas pelo menos pude ver o seu sorriso atualizado, e saber que está viva e vivendo seu sonho da melhor maneira possível. Nem eu nem ela nos tornamos líderes de uma banda de punk rock mas nossa energia continua pura, intacta e guerreira.

Hey Iow Silver!!!!!

Agente estava certa
O mundo é de quem realmente o deseja, o com todas as forças.
Thanx for all!!!!

Um comentário:

  1. Damn! Estou até com um nó no estômago!
    So many feelings...so many sensations
    Cassy, obrigada por registrar com tuas palavras nossa história.
    Toda la paz del mundo para vos.
    And never, ever forget to sing:

    "If you want me to
    I will be the one
    that is always good
    and you'll love me too
    But you'll never know
    What I feel inside
    That I'm really bad
    Little trouble girl
    (Kim Gordon)
    Remember mother
    We were close
    Very, very close
    You taught me how to feel good
    flow down life we understood
    curl my hair and eye lash
    hitch my cheeks and do my lips
    Swing my hips just like you
    Smile and behave
    A circle of perfection, it's what you gave
    Then one day I met a guy
    He stole my heart, no alibi
    He said:
    Romance is a ticket to paradise
    Momma, I'm not too young to try
    We kissed
    We hugged
    We were close
    Very, very close
    We danced in the sand
    and the water rose - higher and higher
    until I found myself floating - in the sky
    I'm sorry mother
    I'd rather fight than have to lie
    If you want me to
    I will be the one
    that is always good
    and you'll love me too
    But you'll never know
    What I feel inside
    That I'm really bad
    Little trouble girl

    Cross my heart and hope to die
    I can not tell a lie"

    Silver

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