Ontem, meus amigos resolveram “se divertir pra valer”( não sei porque, minhas piores noites sempre começaram com esse jargão), o que significa que fui parar na Help, um clube trash na avenida atlântica, que provavelmente deve ter sido pop em algum momento dos anos 70. Eu queria ir pro Bucowski em Botafogo, com som de primeira e destilado duplo, mas éramos em 12, difíceis de organizar e além do mais a proposta era “Se divertir pra valer”.
Inferninhos até que me atraem, incitam minha imaginação doentia. Amigos querendo “se divertir pra valer”são engraçados, ainda mais quando totalmente fora de contexto. Mas a decadência de si mesma tentando inutilmente interagir com um ambiente, isso faz tudo parecer caro demais.
O que estava me incomodando de fato não era o cheiro de formol no ar, a falta de álcool no sangue, o excesso de mulheres no ambiente, os 30 paus que eu deixei na porta ou os gringos “corcundas de Notredame” vagando sem sex appeal. Era o meu próprio inferno particular onde fui atirada de cara no momento em que me deixei cercar por aquelas paredes.
Então a solução foi criar um exercício de mentalização às avessas, me deleitando com tudo que mais me incomodava na vida. Aquele DJ era o mais imediato. Depois veio as filas, o trânsito, as touradas, os comerciais de loja de departamento, a burocracia.... a corja do mensalão, dos sangue suga, dos coronéis nepotistas...as opiniões da igreja, o falso moralismo de esquerda, as ONG’s glutonas, o voto obrigatório, a imunidade parlamentar...os jovens excêntricos, os velhos jocosos, as celebridades vazias, os surfistas faladores...os que amam demais, os que reclamam demais, os que deixam claro que estão pedindo esmola mas poderiam estar te assaltando, os que vendem poesia em boteco...papo de depressão alheia, minhas unhas sujas, seqüência de dias sem sol e enfim.... as noites em que se sai com o intuito de “se divertir pra valer”.
Dei uma ultima olhada no ambiente, senti meio segundo de saudade e me despedi com a prazerosa consciência de nunca mais voltar.
Saí com a estranha sensação de que não fui eu que não gostei do lugar, foi o lugar que não gostou de mim. Só a Umbanda explica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário